In November 2025, I was in Japan when I felt a pain in my lower abdomen that took me to St. Luke's International Hospital in Chiyoda, Tokyo. What seemed like a routine visit became the moment I discovered I was ovotesticular — what medicine calls a true hermaphrodite. At 25, my body was going through a spontaneous female puberty. No external hormones. No intervention. The body deciding on its own what it always was.
Em novembro de 2025, eu estava no Japão quando senti uma dor no ventre baixo que me levou ao St. Luke's International Hospital, em Chiyoda, Tokyo. O que parecia uma consulta de rotina virou o momento em que eu descobri que era ovotesticular — o que a medicina chama de hermafrodita verdadeiro. Aos 25 anos, meu corpo estava passando por uma puberdade feminina espontânea. Nenhum hormônio externo. Nenhuma intervenção. O corpo decidindo por conta própria o que sempre foi.
Explaining this to my family was the hardest part — not for lack of love, but for lack of vocabulary. Everyone knows the word "trans" these days, but "intersex" is still a concept most people have never truly heard of. It was a process of patience, explaining layer by layer. Today they're super attentive, they love me, and they understand — or try to understand the best way they can. Doctors, on the other hand, react differently: they're startled by the rarity. A spontaneous female puberty at 25 is something most clinicians have never seen and don't quite know how to manage. As for other people — most don't want to understand, so I simply cut the relationship. It's not coldness: it's self-preservation.
Explicar isso para a família foi a parte mais difícil — não por falta de amor, mas por falta de vocabulário. Todo mundo conhece a palavra "trans" hoje em dia, mas "intersexo" ainda é um conceito que a maioria das pessoas nunca ouviu de verdade. Foi um processo de paciência, de explicar camada por camada. Hoje eles estão superatentos, me amam, e entendem — ou tentam entender da melhor forma que podem. Os médicos, por outro lado, reagem de outro jeito: ficam assustados com a raridade. Uma puberdade feminina espontânea aos 25 anos é algo que a maioria dos clínicos nunca viu e não sabe exatamente como manejar. Quanto às outras pessoas — a maioria não quer entender, então eu simplesmente corto o relacionamento. Não é frieza: é autopreservação.
Living as an intersex woman has a very good side and a side that still weighs. The good side is being at peace with myself — being in the right body, the right gender, in a way that was never forced or built from the outside. For me, this feels better than being a man ever did. But gender dysphoria still gets in the way more than the good part helps — it didn't disappear just because the body is heading in the right direction. It's a process.
Viver como mulher intersexo tem um lado muito bom e um lado que ainda pesa. O lado bom é estar bem comigo mesma — estar no corpo certo, no gênero certo, de um jeito que nunca foi forçado nem construído por fora. Para mim, isso é mais gostoso do que ser homem jamais foi. Mas a disforia de gênero ainda atrapalha mais do que a parte boa ajuda — ela não sumiu só porque o corpo está indo na direção certa. É um processo.
And let me be clear: I don't identify as trans, because my body made that decision before anything else. Ovotesticular is gonadal, it's biological. My femininity is not an identity superimposed on a male body — it's the body expressing itself.
E deixo claro: eu não me identifico como trans, porque meu corpo tomou essa decisão antes de qualquer outra coisa. Ovotesticular é gonadal, é biológico. Minha feminilidade não é identidade sobreposta a um corpo masculino — é o próprio corpo se expressando.
The biggest practical challenge I faced was one very few people imagine: learning to walk again. With the loss of all testosterone-dependent male muscle mass, my gait simply didn't work the same way anymore. I had to consciously study female anatomy to understand how to redistribute weight, how to use the lumbar lordosis that had already developed in the female pattern as a balance point. Relearning to walk as an adult. It sounds absurd even to me when I say it out loud, but it was real. And it was also one of the most intimate experiences I've had with my own body — understanding how it works on the inside in order to inhabit it on the outside.
O maior desafio prático que enfrentei foi um que pouquíssimas pessoas imaginam: reaprender a andar. Com a perda de toda a massa muscular masculina dependente de testosterona, minha marcha simplesmente não funcionava mais da mesma forma. Tive que estudar anatomia feminina de forma consciente para entender como redistribuir peso, como usar a lordose lombar que já havia se desenvolvido no padrão feminino como ponto de equilíbrio. Reaprender a andar como adulta. Parece absurdo até para mim quando falo em voz alta, mas foi real. E foi também uma das experiências mais íntimas que tive com o meu próprio corpo — entender como ele funciona por dentro para conseguir habitá-lo por fora.
What would I like Brazil to do differently? First of all: more prepared hospitals. Today in São Paulo, the only public reference for intersex people is HC / Hospital das Clínicas. A city of 12 million people, with a single reference service for a condition that affects approximately 1.7% of the world's population. Most doctors don't know how to handle it, weren't trained, and react with shock where they should react with competence. Intersex people in Brazil deserve a healthcare network that knows them — not as a textbook rarity, but as real patients with real needs.
O que eu gostaria que o Brasil fizesse diferente? Antes de tudo: mais hospitais preparados. Hoje, em São Paulo, a única referência pública para pessoas intersexo é o HC / Hospital das Clínicas. Uma cidade de 12 milhões de pessoas, com um único serviço de referência para uma condição que afeta aproximadamente 1,7% da população mundial. A maioria dos médicos não sabe lidar, não foi treinada, e reage com susto onde deveria reagir com competência. Pessoas intersexo no Brasil merecem uma rede de saúde que as conheça — não como raridade de livro didático, mas como pacientes reais com necessidades reais.