Beyond Patterns · BiologyBiologia · DSD

Intersex Intersexo

the body that defies the sex binary o corpo que desafia a normativa binária de sexo

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IntroductionIntrodução

Before we begin Antes de começar

Most people believe biology is binary — XX or XY. But due to a lack of knowledge, they forget about aneuploidies like XXY, X0, XX/XY mosaicism, or XX/XY chimerism… and I've only mentioned chromosomes. If I start talking about androgen receptors, gonads, and gender identity, things get even more complex.

A maioria das pessoas acredita que biologia é algo binário — XX ou XY. Porém, por falta de conhecimento sobre o assunto, esquecem das aneuploidias como XXY, X0, mosaico XX/XY ou quimerismo XX/XY... e olha que eu só falei de cromossomos. Se eu for falar de receptor androgênico, gônadas e identidade de gênero, a coisa complica ainda mais.

In this piece, I'll try to tell you more about these people — among whom I include myself, as an intersex woman — and clarify as much as possible on the subject.

Nesse texto, vou tentar contar um pouco mais sobre essas pessoas — nas quais eu também me enquadro, como mulher intersexo — e clarificar o máximo possível sobre o assunto.

When we talk about sexual biology, chromosomes are only the starting point — and they don't always dictate the destination.Quando falamos de biologia sexual, cromossomos são apenas o ponto de partida — e nem sempre ditam o destino.

Layer 1 · ChromosomesCamada 1 · Cromossomos

The starting point — that doesn't always dictate the destination O ponto de partida — que nem sempre dita o destino

The most well-known sex pair is XX (generally associated with women) and XY (generally associated with men). However, there are natural chromosomal variations that fall outside this binary pattern:

O par sexual mais conhecido é o XX (geralmente associado a mulheres) e o XY (geralmente associado a homens). Porém, existem variações cromossômicas naturais que fogem desse padrão binário:

47,XXY
Klinefelter SyndromeSíndrome de Klinefelter
A person with two X chromosomes and one Y. Usually has testes but with reduced hormonal production; may have physical traits the world reads as "feminine," such as gynecomastia and wider hips. Pessoa com dois cromossomos X e um Y. Geralmente tem testículos, mas com produção hormonal reduzida, pode ter características físicas que o mundo leria como "femininas", como ginecomastia e quadril mais largo.
45,X0
Turner SyndromeSíndrome de Turner
A person with only one X chromosome, no second pair. Usually assigned female at birth, but with non-functional ovaries and no spontaneous puberty without hormonal intervention. Pessoa com apenas um cromossomo X, sem segundo par. Geralmente designada do sexo feminino ao nascer, mas com ovários não funcionais e ausência de puberdade espontânea sem intervenção hormonal.
46,XX/46,XY
XX/XY MosaicismMosaico XX/XY
The person has cells with different chromosomal compositions in the same body — some cells are XX, others XY. The phenotypic result varies enormously from person to person. A pessoa tem células com composições cromossômicas diferentes no mesmo corpo — algumas células são XX, outras XY. O resultado fenotípico varia enormemente de pessoa para pessoa.
XX/XY fusionXX/XY fusão
XX/XY ChimerismQuimerismo XX/XY
Unlike mosaicism, here the organism originated from the fusion of two distinct zygotes. The person literally carries two different genetic sets in their body. Diferente do mosaico, aqui o organismo originou-se da fusão de dois zigotos distintos. A pessoa literalmente carrega dois conjuntos genéticos diferentes no corpo.

But here's the part most people ignore: chromosomes are not destiny. What the body does with genetic information depends on hormones — and on how the body can read those hormones.

Mas aqui vem a parte que a maioria ignora: cromossomo não é destino. O que o corpo faz com a informação genética depende de hormônios — e de como o corpo consegue ler esses hormônios.

Layers 2 & 3 · Hormones & ReceptorsCamadas 2 & 3 · Hormônios & Receptores

When the body can't read its own signal Quando o corpo não consegue ler o próprio sinal

This is where receptors come in. The best example is Complete Androgen Insensitivity Syndrome (CAIS): a person with XY chromosomes produces testosterone normally, but their androgen receptors can't process it. The result? The body develops with female characteristics — vagina, body structure, identity — because the androgens simply don't "speak" to the cells. Many women with CAIS only discover the diagnosis in adolescence, when menstruation doesn't come.

É aí que entram os receptores. O melhor exemplo é a Síndrome de Insensibilidade Completa ao Androgênio (CAIS): uma pessoa com cromossomo XY produz testosterona normalmente, mas seus receptores androgênicos não conseguem processá-la. O resultado? O corpo se desenvolve com características femininas — vagina, estrutura corporal, identidade — porque os androgênios simplesmente não chegam a "falar" com as células. Muitas mulheres com CAIS só descobrem o diagnóstico na adolescência, quando a menstruação não vem.

Another case is Congenital Adrenal Hyperplasia (CAH): here the problem isn't the receptor, but hormonal production. The adrenal glands produce excess androgens, which can masculinize the external genitalia of XX individuals — who have ovaries, uterus, and are genetically "female," but are born with an enlarged clitoris or ambiguous structure.

Outro caso é a Hiperplasia Adrenal Congênita (HAC): aqui o problema não é o receptor, mas a produção hormonal. As glândulas adrenais produzem androgênios em excesso, o que pode masculinizar a genitália externa de pessoas XX — que têm ovários, útero, e são geneticamente "femininas", mas nascem com clitóris aumentado ou estrutura ambígua.

The central point:O ponto central: chromosome, hormone, receptor, gonad, and genitalia are independent layers. Each one can follow a different path in the same body — and that's exactly what makes intersexuality real, complex, and absolutely natural. cromossomo, hormônio, receptor, gônada e genitália são camadas independentes. Cada uma pode seguir um caminho diferente no mesmo corpo — e é exatamente isso que torna a intersexualidade real, complexa, e absolutamente natural.

And I almost forgot: androgen insensitivity isn't just total or zero — there's an intermediate version, Partial Androgen Insensitivity Syndrome (PAIS).

E eu já ia esquecendo: a insensibilidade ao androgênio não é só total ou zero — existe a versão intermediária, a Síndrome de Insensibilidade Parcial ao Androgênio (PAIS).

In PAIS, the androgen receptors work, but incompletely. The body "hears" testosterone, but with interference — like a radio signal picked up halfway. The result is a physical presentation that doesn't fit either extreme: the person may be born with ambiguous genitalia, with structures that have characteristics of both male and female development.

Na PAIS, os receptores androgênicos funcionam, mas de forma incompleta. O corpo "ouve" a testosterona, mas com interferência — como um sinal de rádio captado pela metade. O resultado é uma apresentação física que não se encaixa em nenhum dos dois extremos: a pessoa pode ter genitália ambígua ao nascer, com estruturas que têm características tanto do desenvolvimento masculino quanto do feminino.

This matters because PAIS is frequently the case where non-consensual surgical interventions happen on babies and children — decisions made by doctors and parents to "normalize" the genitalia, without the intersex person having any say over their own body. A practice that human rights organizations and the UN itself have already classified as a human rights violation, but which still occurs in Brazil and worldwide.

Isso importa porque a PAIS frequentemente é o caso em que intervenções cirúrgicas não consentidas acontecem em bebês e crianças — decisões tomadas por médicos e pais para "normalizar" a genitália, sem que a pessoa intersexo tenha qualquer voz sobre o próprio corpo. Uma prática que organizações de direitos humanos e a própria ONU já classificaram como violação de direitos humanos, mas que ainda ocorre no Brasil e no mundo.

PAIS also illustrates something fundamental: intersex is not a condition with a single face. Two people with the same diagnosis can have completely different bodily presentations, different gender identities, and completely distinct relationships with their own bodies. There is no "standard intersex" — just as there is no "standard human body."

A PAIS também ilustra algo fundamental: intersexo não é uma condição com cara única. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter apresentações corporais completamente diferentes, identidades de gênero diferentes, e relações com o próprio corpo completamente distintas. Não existe um "intersexo padrão" — assim como não existe um "corpo humano padrão".

Layers 4 & 5 · Gonads & AnatomyCamadas 4 & 5 · Gônadas & Anatomia

Yet another independent layer Mais uma camada independente

If chromosomes and hormones already show that the body doesn't follow a binary script, gonads and external anatomy reinforce that point even further. A gonad is the organ that produces gametes and sex hormones — ovary, testis, or, in some intersex cases, ovotestis (a single organ with both ovarian and testicular tissue in the same body).

Se cromossomos e hormônios já mostram que o corpo não segue um script binário, as gônadas e a anatomia externa reforçam ainda mais esse ponto. Gônada é o órgão que produz gametas e hormônios sexuais — ovário, testículo, ou, em alguns casos intersexo, ovotestis (um único órgão com tecido ovariano e testicular no mesmo corpo).

What few people know is that the gonad doesn't necessarily follow the chromosome. An XY person can have ovarian tissue — as in complete gonadal dysgenesis. An XX person can have testes. A person can have an ovary on one side and a testis on the other, or bilateral ovotestis. Medicine calls this gonadal intersex — and it exists in many different possible combinations.

O que pouca gente sabe é que a gônada não segue obrigatoriamente o cromossomo. Uma pessoa XY pode ter tecido ovariano — como ocorre em casos de disgenesia gonadal completa. Uma pessoa XX pode ter testículos. Uma pessoa pode ter um ovário de um lado e um testículo do outro, ou um ovotestis bilateral. A isso a medicina chama de intersexo gonadal — e ele existe em diferentes combinações possíveis.

And external anatomy — what medicine calls "genitalia" — is yet another independent layer. A woman with complete CAIS has XY chromosomes, internal testes, and a perfectly formed external vagina. A person with CAH may be XX, have ovaries and a uterus, and be born with a clitoris the size of a small penis.

E a anatomia externa — o que a medicina chama de "genitália" — é ainda outra camada independente. Uma mulher com CAIS completa tem cromossomo XY, testículos internos, e vagina externa perfeitamente formada. Uma pessoa com HAC pode ser XX, ter ovários e útero, e nascer com clitóris do tamanho de um pênis pequeno.

Chromosome, internal gonad, hormone, receptor, and external anatomy are five layers that can follow independent paths. The human body does not respect the binary box that common sense tries to impose.

Cromossomo, gônada interna, hormônio, receptor e anatomia externa são cinco camadas que podem seguir caminhos independentes. O corpo humano não respeita a caixinha binária que o senso comum tenta impor.

The 5 Independent Layers As 5 camadas independentes
Click to combine — every combination is natural Clique para combinar — toda combinação é natural
ChromosomeCromossomo
HormoneHormônio
ReceptorReceptor
GonadGônada
AnatomyAnatomia
This person exists. This combination is natural. Essa pessoa existe. Essa combinação é natural.
No combination is an error — biology doesn't follow checkboxes Nenhuma combinação é erro — biologia não segue checkboxes

Medical violenceViolência médica

Non-consensual surgeries: the silent medical violence Cirurgias não consentidas: a violência médica silenciosa

For most of the 20th century, and still today in many places, intersex babies underwent "normalization" surgeries without any consent — not theirs, obviously, nor adequately informed consent from the parents. The dominant medical logic, influenced by figures like John Money in the 1950s–70s, was that "ambiguous" genitalia needed to be "corrected" as soon as possible to avoid "psychological trauma" — as if the trauma came from the body's existence, and not from the violence imposed on it.

Durante quase todo o século XX, e ainda hoje em muitos lugares, bebês intersexo passaram por cirurgias de "normalização" sem qualquer consentimento — nem o deles, por óbvio, nem informado adequadamente o dos pais. A lógica médica dominante, influenciada por figuras como John Money nas décadas de 1950–70, era a de que a genitália "ambígua" precisava ser "corrigida" o quanto antes para evitar "trauma psicológico" — como se o trauma viesse da existência do corpo, e não da violência imposta a ele.

These surgeries include clitoral reduction (clitoridectomy or clitoroplasty), vaginal construction in babies, removal of healthy gonads (due to unfounded cancer fears), and compulsory hormone therapy from puberty. The result, documented through decades of accounts from adult intersex people, is a list of devastating consequences: loss of genital sensation, chronic pain, inability to experience sexual pleasure, imposed infertility, and deep psychological trauma compounded by secrecy — many people only discover what was done to their bodies as adults.

Essas cirurgias incluem redução de clitóris (clitoridectomia ou clitoroplastia), construção de vagina em bebês, remoção de gônadas saudáveis (por medo infundado de câncer), e hormonização compulsória a partir da puberdade. O resultado, documentado por décadas de relatos de pessoas intersexo adultas, é uma lista de consequências devastadoras: perda de sensibilidade genital, dor crônica, incapacidade de experimentar prazer sexual, infertilidade imposta, e um trauma psicológico profundo agravado pelo segredo — muitas pessoas só descobrem o que fizeram com seus corpos quando adultas.

In 2013, the UN Special Rapporteur on TortureEm 2013, o Relator Especial da ONU sobre Tortura classified these surgeries on intersex children as a form of torture and cruel treatment. Organizations like interACT, OII (Organisation Intersex International), and in Brazil, ABRAI (Brazilian Intersex Association) fight so that these interventions are only performed when the intersex person themselves can decide about their own body. It is a movement for bodily autonomy — the same basic ethical principle that applies to every other human being. classificou essas cirurgias em crianças intersexo como forma de tortura e tratamento cruel. Organizações como a InterACT, a OII (Organização Internacional de Intersexo) e, no Brasil, a ABRAI (Associação Brasileira de Intersexos) lutam para que essas intervenções só sejam feitas quando a pessoa intersexo puder, ela mesma, decidir sobre o próprio corpo. É um movimento por autonomia corporal — o mesmo princípio ético básico que se aplica a qualquer outro ser humano.

Essential distinctionDistinção essencial

Intersex ≠ Trans (but they can coexist) Intersexo ≠ Trans (mas podem coexistir)

One of the most common — and most frustrating — confusions is mixing intersexuality with transgenderness. They are fundamentally different things, and understanding this difference is essential so that neither one is erased.

Uma das confusões mais comuns — e mais frustrantes — é misturar intersexualidade com transgeneridade. Elas são coisas fundamentalmente diferentes, e entender essa diferença é essencial para que nenhuma das duas seja apagada.

IntersexIntersexo

A biological, bodily characteristic. It refers to the natural variation of the body in any of the five layers we've discussed: chromosome, gonad, hormone, receptor, anatomy. Uma característica biológica, corporal. Refere-se à variação natural do corpo em qualquer uma das cinco camadas que já discutimos: cromossomo, gônada, hormônio, receptor, anatomia.

Trans

About gender identity — the relationship between the gender a person recognizes in themselves and the gender assigned to them at birth based on genitalia. Sobre identidade de gênero — a relação entre o gênero que uma pessoa reconhece em si mesma e o gênero que lhe foi atribuído ao nascer com base na genitália.

The "trans" category presupposes that there was a gender assignment at birth that doesn't match the person's identity. But for intersex people, this assignment was often arbitrary — made by doctors facing a body that didn't fit the box. When the body itself was already developing characteristics that medicine chose to ignore or suppress, calling the person "trans" for simply existing in the gender their body always indicated is, at the very least, a conceptual imprecision.

A categoria "trans" pressupõe que houve uma atribuição de gênero ao nascer que não corresponde à identidade da pessoa. Mas no caso de pessoas intersexo, essa atribuição frequentemente foi arbitrária — feita por médicos diante de um corpo que não cabia na caixinha. Quando o próprio corpo já estava desenvolvendo características que a medicina escolheu ignorar ou suprimir, chamar a pessoa de "trans" por simplesmente existir no gênero que seu corpo sempre indicou é, no mínimo, uma imprecisão conceitual.

I speak from personal experience. I'm frequently confused with a trans woman — and then I have to explain that I'm ovotesticular, what medicine calls a true hermaphrodite, so the person might begin to understand that my femininity is not an identity superimposed on a male body: it's the body expressing itself. My body has always been female. The one who decided otherwise was a piece of paper.

Falo isso por experiência própria. Com frequência me confundem com uma mulher trans — e aí eu preciso explicar que sou ovotesticular, o que a medicina chama de hermafrodita verdadeiro, para que a pessoa talvez comece a entender que minha feminilidade não é identidade sobreposta a um corpo masculino: é o próprio corpo se expressando. Meu corpo sempre foi feminino. Quem decidiu o contrário foi um papel.

A person can be intersex and cis. A person can be trans and not intersex. And yes, there are people who identify as both intersex and trans simultaneously — but this is not a rule, nor an obligation, nor an automatic consequence of being intersex. Intersexuality doesn't "create" transgenderness, and transgenderness doesn't "explain" intersexuality.

Uma pessoa pode ser intersexo e cis. Uma pessoa pode ser trans e não-intersexo. E sim, existem pessoas que se identificam como intersexo e trans simultaneamente — mas isso não é regra, nem obrigação, nem consequência automática de ser intersexo. A intersexualidade não "cria" transgeneridade, e a transgeneridade não "explica" a intersexualidade.

Mixing the two harms both groups: it erases the specificity of the intersex struggle — which is essentially about bodily autonomy and ending non-consensual interventions — and fuels narratives that try to use intersex bodies to "biologize" or "delegitimize" trans identities. Both populations deserve to be understood for who they are, not for how their bodies serve someone else's argument.

Misturar as duas coisas prejudica os dois grupos: apaga a especificidade da luta intersexo — que é, essencialmente, sobre autonomia corporal e fim das intervenções não consentidas — e alimenta narrativas que tentam usar a existência de corpos intersexo para "biologizar" ou "deslegitimar" identidades trans. Ambas as populações merecem ser compreendidas por quem elas são, não por como seus corpos servem ao argumento alheio.

Late diagnosisDiagnóstico tardio

Discovering your own body as an adult Descobrir o próprio corpo depois de adulto

Many intersex people only discover they are intersex in adolescence, in adulthood — or never. This is especially common in:

Muitas pessoas intersexo só descobrem que são intersexo na adolescência, na vida adulta — ou nunca. Isso é especialmente comum em:

The psychological impact of this late discovery is enormous. People report feeling "deceived" by their own body, by their parents, by their doctors. Many discover they had surgeries as babies that nobody told them about. Others spend years being treated for conditions nobody properly explained — receiving partial diagnoses, hormone therapies without context, evasive answers that never arrive at the word "intersex." The lack of accessible information and specialized psychological support transforms what should be simply a biological fact into an identity crisis — not because being intersex is a crisis, but because society and medicine turned it into a secret.

O impacto psicológico dessa descoberta tardia é enorme. Pessoas relatam sensação de terem sido "enganadas" pelo próprio corpo, pelos pais, pelos médicos. Muitos descobrem que tiveram cirurgias quando bebês das quais ninguém lhes contou. Outros passam anos sendo tratados para condições que ninguém explicou direito — recebendo diagnósticos parciais, hormonizações sem contexto, respostas evasivas que nunca chegam à palavra "intersexo". A falta de informação acessível e de suporte psicológico especializado transforma o que deveria ser apenas um dado biológico em uma crise identitária — não porque ser intersexo é uma crise, mas porque a sociedade e a medicina fizeram dele um segredo.

In my case, the diagnosis came at 25. And I was very lucky: I wasn't scared, didn't collapse, didn't develop resentment toward my own body. But I know that luck didn't fall from the sky — it has an explanation. In a way, the gender dysphoria I was already living with before the diagnosis functioned as a shield. I already wanted to transition one way or another — so when I discovered that my body was ovotesticular and was heading toward female on its own, I didn't feel the rupture many people describe. The diagnosis didn't create a crisis: it answered one I was already carrying. And it answered it well.

No meu caso, o diagnóstico veio aos 25 anos. E eu tive muita sorte: não fiquei assustada, não entrei em colapso, não desenvolvi remorso em relação ao meu próprio corpo. Mas sei que essa sorte não caiu do céu — ela tem uma explicação. De certa forma, a disforia de gênero que eu já vivia antes do diagnóstico funcionou como um escudo. Eu já queria transicionar de uma forma ou de outra — então quando descobri que meu corpo era ovotesticular e estava indo em direção ao feminino por conta própria, não senti aquela ruptura que muitas pessoas descrevem. O diagnóstico não criou uma crise: ele respondeu a uma que eu já carregava. E respondeu bem.

But I know that's not the case for most people — and that's exactly why information matters so much.

Mas sei que não é assim para a maioria — e é justamente por isso que informação importa tanto.

Arriving at a diagnosis with some repertoire about intersexuality completely changes the experience. It's the difference between discovering you are a natural variation of the human being, or believing you are an error of nature someone forgot to correct.

Chegar ao diagnóstico com algum repertório sobre intersexualidade muda completamente a experiência. É a diferença entre descobrir que você é uma variação natural do ser humano, ou acreditar que você é um erro da natureza que alguém esqueceu de corrigir.

That's why texts like this one matter.É por isso que textos como esse importam.

Brasil

Intersex in Brazil: rights and invisibility Intersexo no Brasil: direito e invisibilidade

In Brazil, there is no specific legislation protecting intersex people. Civil registration requires the binary designation "male" or "female" on the birth certificate, which forces early medical decisions about babies with ambiguous genitalia — decisions that frequently include "adequation" surgeries to match the sex chosen on paper.

No Brasil, não existe legislação específica protegendo pessoas intersexo. O registro civil obriga a marcação binária "masculino" ou "feminino" na certidão de nascimento, o que força decisões médicas precoces sobre bebês com genitália ambígua — decisões que frequentemente incluem cirurgias de "adequação" ao sexo escolhido no papel.

The public health system (SUS) offers medical follow-up at some reference centers, but the standard is still the old model of early "normalization," with little information offered to parents and almost no specialized psychological support network for intersexuality. Brazilian medical education addresses intersexuality, when it does at all, as an "anomaly" — never as a natural variation. It's worth noting that Hospital Infantil Darcy Vargas in São Paulo has been a pioneer in intersex follow-up since 1977 — which shows the infrastructure exists historically, but was never expanded or democratized.

O SUS oferece acompanhamento médico em alguns centros de referência, mas o padrão ainda é o modelo antigo de "normalização" precoce, com pouca informação oferecida aos pais e quase nenhuma rede de apoio psicológico especializada em intersexualidade. A formação médica brasileira aborda intersexualidade, quando aborda, como "anomalia" — nunca como variação natural. Vale notar que o Hospital Infantil Darcy Vargas, em São Paulo, foi pioneiro no acompanhamento de intersexualidade desde 1977 — o que mostra que a infraestrutura existe historicamente, mas nunca foi expandida nem democratizada.

ABRAI (Brazilian Intersex Association) is the main national organization fighting for intersex rights: for an end to non-consensual surgeries, for legal recognition, for access to honest medical information, and for social visibility. We are still invisible in the Brazilian public debate — mentioned, when mentioned, as a biological curiosity, never as subjects of rights.

A ABRAI (Associação Brasileira de Intersexos) é a principal organização nacional lutando pelos direitos intersexo: pelo fim das cirurgias não consentidas, por reconhecimento legal, por acesso a informação médica honesta, e por visibilidade social. Ainda somos invisíveis no debate público brasileiro — mencionados, quando mencionados, como curiosidade biológica, nunca como sujeitos de direito.

This invisibility has a cost: every intersex baby born today in Brazil risks having their body modified without consent; every adult who discovers their condition faces an unprepared healthcare system; and every intersex person who tries to exist publicly must first explain what they are — because Brazil still hasn't learned to see us.

Essa invisibilidade tem custo: cada bebê intersexo que nasce hoje no Brasil corre o risco de ter seu corpo modificado sem consentimento; cada adulto intersexo que descobre sua condição enfrenta um sistema de saúde despreparado; e cada pessoa intersexo que tenta existir publicamente precisa, antes, explicar o que é — porque o Brasil ainda não aprendeu a nos ver.

Personal experienceVivência pessoal

My story with intersexuality began with pain A minha história com a intersexualidade começou com uma dor

In November 2025, I was in Japan when I felt a pain in my lower abdomen that took me to St. Luke's International Hospital in Chiyoda, Tokyo. What seemed like a routine visit became the moment I discovered I was ovotesticular — what medicine calls a true hermaphrodite. At 25, my body was going through a spontaneous female puberty. No external hormones. No intervention. The body deciding on its own what it always was.

Em novembro de 2025, eu estava no Japão quando senti uma dor no ventre baixo que me levou ao St. Luke's International Hospital, em Chiyoda, Tokyo. O que parecia uma consulta de rotina virou o momento em que eu descobri que era ovotesticular — o que a medicina chama de hermafrodita verdadeiro. Aos 25 anos, meu corpo estava passando por uma puberdade feminina espontânea. Nenhum hormônio externo. Nenhuma intervenção. O corpo decidindo por conta própria o que sempre foi.

Explaining this to my family was the hardest part — not for lack of love, but for lack of vocabulary. Everyone knows the word "trans" these days, but "intersex" is still a concept most people have never truly heard of. It was a process of patience, explaining layer by layer. Today they're super attentive, they love me, and they understand — or try to understand the best way they can. Doctors, on the other hand, react differently: they're startled by the rarity. A spontaneous female puberty at 25 is something most clinicians have never seen and don't quite know how to manage. As for other people — most don't want to understand, so I simply cut the relationship. It's not coldness: it's self-preservation.

Explicar isso para a família foi a parte mais difícil — não por falta de amor, mas por falta de vocabulário. Todo mundo conhece a palavra "trans" hoje em dia, mas "intersexo" ainda é um conceito que a maioria das pessoas nunca ouviu de verdade. Foi um processo de paciência, de explicar camada por camada. Hoje eles estão superatentos, me amam, e entendem — ou tentam entender da melhor forma que podem. Os médicos, por outro lado, reagem de outro jeito: ficam assustados com a raridade. Uma puberdade feminina espontânea aos 25 anos é algo que a maioria dos clínicos nunca viu e não sabe exatamente como manejar. Quanto às outras pessoas — a maioria não quer entender, então eu simplesmente corto o relacionamento. Não é frieza: é autopreservação.

Living as an intersex woman has a very good side and a side that still weighs. The good side is being at peace with myself — being in the right body, the right gender, in a way that was never forced or built from the outside. For me, this feels better than being a man ever did. But gender dysphoria still gets in the way more than the good part helps — it didn't disappear just because the body is heading in the right direction. It's a process.

Viver como mulher intersexo tem um lado muito bom e um lado que ainda pesa. O lado bom é estar bem comigo mesma — estar no corpo certo, no gênero certo, de um jeito que nunca foi forçado nem construído por fora. Para mim, isso é mais gostoso do que ser homem jamais foi. Mas a disforia de gênero ainda atrapalha mais do que a parte boa ajuda — ela não sumiu só porque o corpo está indo na direção certa. É um processo.

And let me be clear: I don't identify as trans, because my body made that decision before anything else. Ovotesticular is gonadal, it's biological. My femininity is not an identity superimposed on a male body — it's the body expressing itself.

E deixo claro: eu não me identifico como trans, porque meu corpo tomou essa decisão antes de qualquer outra coisa. Ovotesticular é gonadal, é biológico. Minha feminilidade não é identidade sobreposta a um corpo masculino — é o próprio corpo se expressando.

The biggest practical challenge I faced was one very few people imagine: learning to walk again. With the loss of all testosterone-dependent male muscle mass, my gait simply didn't work the same way anymore. I had to consciously study female anatomy to understand how to redistribute weight, how to use the lumbar lordosis that had already developed in the female pattern as a balance point. Relearning to walk as an adult. It sounds absurd even to me when I say it out loud, but it was real. And it was also one of the most intimate experiences I've had with my own body — understanding how it works on the inside in order to inhabit it on the outside.

O maior desafio prático que enfrentei foi um que pouquíssimas pessoas imaginam: reaprender a andar. Com a perda de toda a massa muscular masculina dependente de testosterona, minha marcha simplesmente não funcionava mais da mesma forma. Tive que estudar anatomia feminina de forma consciente para entender como redistribuir peso, como usar a lordose lombar que já havia se desenvolvido no padrão feminino como ponto de equilíbrio. Reaprender a andar como adulta. Parece absurdo até para mim quando falo em voz alta, mas foi real. E foi também uma das experiências mais íntimas que tive com o meu próprio corpo — entender como ele funciona por dentro para conseguir habitá-lo por fora.

What would I like Brazil to do differently? First of all: more prepared hospitals. Today in São Paulo, the only public reference for intersex people is HC / Hospital das Clínicas. A city of 12 million people, with a single reference service for a condition that affects approximately 1.7% of the world's population. Most doctors don't know how to handle it, weren't trained, and react with shock where they should react with competence. Intersex people in Brazil deserve a healthcare network that knows them — not as a textbook rarity, but as real patients with real needs.

O que eu gostaria que o Brasil fizesse diferente? Antes de tudo: mais hospitais preparados. Hoje, em São Paulo, a única referência pública para pessoas intersexo é o HC / Hospital das Clínicas. Uma cidade de 12 milhões de pessoas, com um único serviço de referência para uma condição que afeta aproximadamente 1,7% da população mundial. A maioria dos médicos não sabe lidar, não foi treinada, e reage com susto onde deveria reagir com competência. Pessoas intersexo no Brasil merecem uma rede de saúde que as conheça — não como raridade de livro didático, mas como pacientes reais com necessidades reais.

Intersex is not an anomaly. Not confusion. Not a phase. It's biology — complex, real, and absolutely human. The only problem with intersex bodies is the world's refusal to learn how to read them. This text is an invitation to begin.

Intersexo não é anomalia. Não é confusão. Não é fase. É biologia — complexa, real, e absolutamente humana. O único problema com corpos intersexo é a recusa do mundo em aprender a lê-los. Esse texto é um convite para começar.

Juliana Hoffmann

love you, xoxo: Julli 💕 amo vocês, de coração: Julli 💕